quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Relatório do Clube de Roma


O conceito de desenvolvimento sustentável não surgiu nos anos 90.

Pode dizer-se que, alguns autores, consideram a publicação, em 1962, do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, como o começo das discussões internacionais sobre o meio ambiente.

No entanto, por ser um estudo académico, a sua importante contribuição foi restrita.

Outro evento influente nas discussões ocorreu, em 1968, em Paris, com a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para Uso e Conservação Racionais dos Recursos da Biosfera, conhecida como Conferência da Biosfera, que foi organizada pela UNESCO. Esta conferência também muito importante foi direccionada somente para os aspectos científicos da conservação da biosfera e pesquisas em Ecologia.

Um dos documentos mais importantes, em termos de repercussão entre os cientistas e os governantes foi o Relatório Meadows, conhecido como Relatório do Clube de Roma, que propõe crescimento económico zero e influenciou, de maneira decisiva, o debate na conferência de Estocolmo.

O Relatório Meadows não surgiu por um acaso.

Em 1966, o Dr. Aurélio Peccei, top manager da Fiat e Olivetti e diretor da Italconsult, manifestou a sua preocupação com a economia e o desejo de ter algumas respostas. Recebeu donativos da Volswagen, Ford, Olivetti entre outras.

Em 1968, constituiu-se o Clube de Roma, composto por cientistas, industriais e políticos, que tinha como objectivo discutir e analisar os limites do crescimento económico levando em conta o uso crescente dos recursos naturais.

Detectaram que os maiores problemas eram: industrialização acelerada, rápido crescimento demográfico, escassez de alimentos, esgotamento de recursos não renováveis e deterioração do meio ambiente. Tinham uma visão ecocentrica e definiam que o grande problema estava na pressão da população sobre o meio ambiente.

No ano de 1972, um grupo de pesquisadores liderado por Dennis L. Meadows publicou o estudo intitulado "Os Limites do Crescimento". No estudo, fazendo uma projecção para cem anos (sem levar em conta o progresso tecnológico e a possibilidade de descoberta de novos materiais) apontou-se que, para atingir a estabilidade económica e respeitar a finitude dos recursos naturais seria necessário congelar o crescimento da população global e do capital industrial. Tal posição significava uma clara rediscussão das velhas teses de Thomas Malthus sobre os perigos do crescimento da população mundial. A tese do Crescimento Zero era um ataque directo às teorias de crescimento económico contínuo propalados pelas teorias económicas.

O relatório teve repercussão internacional, principalmente, no direccionamento do debate caloroso que ocorreu, no mesmo ano de 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, conhecida como Conferência de Estocolmo. De forma sucinta, as teses e conclusões básicas do grupo de pesquisadores, coordenado por Dennis Meadows (1972) são:
  • 1. Se as actuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial.
  • 2. É possível modificar estas tendências de crescimento e formar uma condição de estabilidade ecológica e económica que se possa manter até um futuro remoto. O estado de equilíbrio global poderá ser planeado de tal modo que as necessidades materiais básicas de cada pessoa na Terra sejam satisfeitas, e que cada pessoa tenha igual oportunidade de realizar o seu potencial humano individual.
  • 3. Se a população do mundo decidir empenhar-se em obter este segundo resultado, em vez de lutar pelo primeiro, quanto mais cedo começar a trabalhar para alcançá-lo, maiores serão suas possibilidades de êxito.
Surgiram, imediatamente, várias críticas em diversas áreas.

Entre os teóricos que defendiam as teorias do crescimento ilimitado apareceu o Prémio Nobel em Economia, Solow, que criticou com veemência os prognósticos catastróficos do Clube de Roma (Solow, 1973 e 1974). Também intelectuais dos países subdesenvolvidos manifestaram-se de forma crítica. Assim Mahbub ul Haq (1976) levantou a tese de que as sociedades ocidentais, depois de um século de crescimento industrial acelerado, defendiam o congelamento do crescimento (desenvolvimento) com a retórica ecologista, o que atingia de forma directa os países pobres, que tendiam a continuar pobres.

Embora se tenham passado mais de 38 anos, o debate é frequentemente levantado, claro que com argumentos mais sofisticados. Continuiam as divergências e desentendimentos no discurso global sobre a questão do crescimento (muitas vezes, ainda confundido com desenvolvimento) e a sustentabilidade ambiental e social.

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